domingo, 11 de fevereiro de 2018

AMIGOS,







E  a todos vós dedico este lindo poema de Aniversário


No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos, E a alegria de todos, e a minha, estava certa como uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família, E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim. Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças
.
Quando vim a.olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo, O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província, O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!... (Nem o acho... ) O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

 O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa, Pondo grelado nas paredes...
 O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
 O que eu sou hoje é terem vendido a casa, É terem morrido todos,
 É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...


No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo! Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal, Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

 Pára, meu coração! Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
 Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
 Hoje já não faço anos. Duro. Somam-se-me dias.
 Serei velho quando o for. Mais nada.
 Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ...
 O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

 Álvaro de Campos

....e hoje é tempo de se festejar o dia dos anos  do COMEÇAR DE NOVO; já são nove anos de vida e os amigos continuam presentes, acarinhando-o e incentivando-o a continuar..Para vós vão os PARABÉNS e o meu abraço de grande amizade

Emilia Pinto

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

A VIDA




Ó grandes olhos outomnaes! mysticas luzes!
 Mais tristes do que o amor, solemnes como as cruzes!
Ó olhos pretos! olhos pretos! olhos cor Da capa d'Hamlet, das gangrenas do Senhor!
Ó olhos negros como noites, como poços!
Ó fontes de luar, n'um corpo todo ossos!
Ó puros como o céu! ó tristes como levas De degredados!
Ó Quarta-feira de Trevas!
Vossa luz é maior, que a de trez luas-cheias:
Sois vós que allumiaes os prezos, nas cadeias,
Ó velas do perdão! candeias da desgraça!
Ó grandes olhos outomnaes, cheios de Graça!
Olhos accezos como altares de novena!
Olhos de genio, aonde o Bardo molha a penna!
Ó carvões que accendeis o lume das velhinhas, Lume dos que no mar andam botando as linhas...
Ó pharolim da barra a guiar os navegantes!
Ó pyrilampos a allumiar os caminhantes, Mais os que vão na diligencia pela serra!
Ó Extrema-Uncção final dos que se vão da Terra!
Ó janellas de treva, abertas no teu rosto!
Thuribulos de luar! Luas-cheias d'Agosto! Luas d'Estio! Luas negras de velludo!
Ó luas negras, cujo luar é tudo, tudo Quanto ha de branco: véus de noivas, cal Da ermida, velas do hiate, sol de Portugal, Linho de fiar, leite de nossas mães, mãos juntas Que têm erguidas entre cyrios, as defuntas! Consoladores dos Afílictos!
Ó olhos, Portas Do Céu!Ó olhos sem bulir como agoas-mortas! Olhos ophelicos!
Dois soes, que dão sombrinha... Que são em preto os Olhos Verdes de Joanninha...
Olhos tranquillos e serenos como pias!
Olhos Christãos a orar, a orar Ave Marias Cheias de Luz!
Olhos sem par e sem irmãos, Aos quaes estendo, toda a hora, as frias mâos!
Estrellas do pastor! Olhos silenciozos, E milagrozos, e misericordiozos
Com os teus olhos nunca ha noites sem luar, Mesmo no inverno, com chuva e a relampejar!
Olhos negros! vós sois duas noites fechadas, Ó olhos negros! como o céu das trovoadas...
Mas dize, meu amor! ó Dona de olhos taes! De que te serve ter uns astros sem eguaes?
Olha em redor, poiza os teus olhos! O que ves? O mar a uivar! A espuma verde das marés! Escarros! A traição, o odio, a agonia, a inveja! Toda uma cathedral de lutas, uma igreja A arder entre clarões de coleras! O orgulho Insupportavel tal o meu, e o sol de Julho!
Jezus! Jezus! quantos doentinhos sem botica!
Quantos lares sem lume e quanta gente rica!
Quantos reis em palacio e quanta alma sem ferias!
Quantas torturas! Quantas Londres de mizerias!
Quanta injustiça! quanta dor! quantas desgraças!
Quantos suores sem proveito! quantas taças A trasbordar veneno em espumantes boccas!
Quantos martyrios, ai! quantas cabeças loucas, N'este macomio do Planeta!
E as orfandades! E os vapores no mar, doidos, ás tempestades!
E os defuntos, meu Deus! que o vento traz á praia!
E aquella que não sae por ter uzada a saia! E os que sossobram entre a vaidade e o dever!
E os que têm, amanhã, uma lettra a vencer!
Olha essa procissão que passa: um torturado De Infinito!
Um rapaz que ama sem ser amado, E para ser feliz fez todos os esforços...
Olha as insomnias d'uma noite de remorsos, Como dez annos de prizão maior-cellular!
Olha esse tysico a tossir, á beira-mar...
Olha o bébé que teve Torre de coral
De lindas illuzões, mas que uma aguia, afinal, Devorou, pois, ao vel-a ao longe, avermelhada, Cuidou, ingenua! que era carne ensanguentada!
Quantos são, hoje? Horror! A lembrança das datas... Olha essas rugas que têm certos diplomatas! Olha esse olhar que têm os homens da politica!
Olha um artista a ler, soluçando, uma critica...
Olha esse que não tem talento e o julga ter
E aquelle outro que o tem... mas não sabe escrever!
Olha, acolá, a Estupidez! Olha a Vaidade!
Olha os Afflictos! A Mentira na Verdade!
Olha um filho a espancar o pae que tem cem annos! Olha um moço a chorar seus crueis desenganos! Olha o nome de Deus, cuspido n'um jornal!
Olha aquelle que habita uma Torre de sal,
Muros e andaimes feitos, não de ondas coalhadas, Mas de outras que chorou, de lagrymas salgadas! Olha um velhinho a carregar com a farinha E o filho no arraial, jogando a vermelhinha!
Olha a sair a barra a galera _Gentil_ E a Anna a chorar p'lo João que parte p'ro Brazil!
Olha, acolá, no caes uma outra como chora: É o marido, um ladrão, que vae «p'la barra fóra!»
Olha esta noiva amortalhada, n'um caixão...
Jezus! Jezus! Jezus! o que hi vae de afflicção!
Ó meu amor! é para ver tantos abrolhos, Ó flor sem elles! que tu tens tão lindos olhos!
 Ah! foi para isto que te deu leite a tua ama, Foi para ver, coitada! essa bola de lama
Que pelo espaço vae, leve como a andorinha, A Terra!
Ó meu amor! antes fosses ceguinha...


 António Nobre, in 'Só'


 Este escritor nasceu em 1867 e até aos dias de hoje a nossa Lingua Portuguesa tem sofrido várias transformações continuando a ser uma lingua bela e muito rica; como língua viva que é, muda e evolui, mas...o que dizer do mundo em que vivemos? Como mostra este poema, as desgraças continuam as mesmas.

 Emília Pinto

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

DESPEDIDA





A Terra gira e nós também
 A Terra morre e nós Também
 Não é possível parar o turbilhão
 Há um ciclone invisível em cada instante
 Os pássaros voam sobre a própria despedida
 As folhas vão-se e nós Também
 Não é vento
 É movimento fluir do tempo amor e morte
 Agora mesmo e para todo o sempre
 Amen


 Manuel Alegre, in "Chegar Aqui


Amigos, ontem, a um qualquer instante o meu pai despediu-se da caminhada que a vida traçou para ele há 89 anos. Hoje, parto para o Brasil para me despedir dele.

Estarei ausente durante um mês. Deixo-vos um beijinho e os votos de um FELIZ ANO NOVO

Emília Pinto

domingo, 17 de dezembro de 2017

BOAS FESTAS


 



A guerra não acabou e o Natal continua a não ser para todos, como pedia John Lennon, mas tentemos que o espírito que se vive nesta quadra se mantenha nos nossos corações para sempre,


Um abraço muito especial para todos e um FELIZ NATAL

Emília Pinto

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

FRAGILIDADE DOS VALORES




Todas as coisas" boas " foram noutro tempo más; todo o pecado original veio a ser virtude original. O casamento, por exemplo, era tido como um atentado contra a sociedade e pagava-se uma multa, por ter tido a imprudência de se apropriar de uma mulher (ainda hoje no Cambodja o sacerdote, guarda dos velhos costumes, conserva o jus primae noctis). Os sentimentos doces, benévolos, conciliadores, compassivos, mais tarde vieram a ser os «valores por excelência»; por muito tempo se atraiu o desprezo e se envergonhava cada qual da brandura, como agora da dureza. A submissão ao direito: oh! que revolução de consciência em todas as raças aristocráticas quando tiveram de renunciar à vingança para se submeterem ao direito! O «direito» foi por muito tempo um vetitum, uma inovação, um crime; foi instituído com violência e opróbio. Cada passo que o homem deu sobre a Terra custou-lhe muitos suplícios intelectuais e corporais; tudo passou adiante e atrasou todo o movimento, em troca teve inumeráveis mártires; por estranho que isto hoje nos pareça, já o demonstrei na Aurora, aforismo 18: «Nada custou mais caro do que esta migalha de razão e de liberdade, que hoje nos envaidece». Esta mesma vaidade nos impede de considerar os períodos imensos da «moralização dos costumes» que precederam a história capital e foram a verdadeira história, a história capital e decisiva que fixou o carácter da humanidade. Então a dor passava por virtude, a vingança por virtude, a renúncia da razão por virtude, e o bem-estar passivo por perigo, o desejo de saber por perigo, a paz por perigo, a misericórdia por opróbio, o trabalho por vergonha, a demência por coisa divina, a conversão por imoralidade e a corrupção por coisa excelente.


 Friedrich Nietzsche, in 'A Genealogia da Moral


É nesta época natalícia que os " valores por excelência " do ser humano mais se notam. Pena que desapareçam logo que  a última luzinha se apague nas ruas das nossas cidades


Emília Pinto

domingo, 26 de novembro de 2017

SUCESSO





Abominável coisa é o bom êxito, seja dito de passagem. A sua falsa parecença com o merecimento ilude os homens. Para o vulgo, o bom sucesso equivale à supremacia. A vítima dos logros do triunfo, desse menecma da habilidade, é a história. Só Tácito e Juvenal se lhe opõem. Existe na época e sente uma filosofia quase oficial, que envergou a libré do bom êxito e lhe faz o serviço da antecâmara. Fazei por serdes bem sucedido, é a teoria. Prosperidade supõe capacidade. Ganhai na lotaria, sereis um homem hábil. Quem triunfa é venerado. Nascei bem-fadado, não queirais mais nada. Tende fortuna, que o resto por si virá; sede feliz, julgar-vos-ão grande. Se pusermos de parte as cinco ou seis excepções imensas que fazem o esplendor de um século, a admiração contemporânea é apenas miopia. Duradora é ouro. Pouco importa que não sejais ninguém, contanto que consigais alguma coisa. O vulgo é um narciso velho, que se idolatra a si próprio e aplaude o vulgar. A faculdade sublime de ser Moisés, Esquilo, Dante, Miguel Ângelo ou Napoleão, decreta-a a multidão indistintamente e por unanimidade a quem atinge o alvo que se propôs, seja no que for. Que um tabelião se transforme em deputado; que um falso Corneille componha Tiridates; que um eununco chegue a possuir um harém; que um Prudhomme militar ganhe por casualidade a batalha decisiva de uma época; que um boticário invente solas de papelão para o exército de Samba e Mosa, e, vendendo-as por couro, consiga arranjar uma fortuna de quatrocentos mil francos de rendimento; que qualquer pobretão case com a usura e a faça parir sete ou oito milhões, de que ele é pai e ela mãe; que qualquer pregador arranje a ser bispo, à força de falar pelo nariz; que o mordomo de qualquer casa grande saia dela tão rico, que obtenha a pasta das Finanças, os homens chamam a isso Génio, do mesmo modo que chamam Beleza à cara de Mousqueton e Majestade à aparência de Cláudio. Confundem com as constelações do abismo as estrelas que os gansos imprimem com as patas na superfície mole do lodaçal.


 Victor Hugo, in 'Os Miseráveis'


O conceito de " ter sucesso " é relativo ; ele depende do que cada um pensa sobre esse assunto. Para mim, a ideia de  ser ou não bem sucedida é diferente do que para qualquer um de vós, não acham?


Emilia Pinto

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

EU, ETIQUETA!


imagem - net


Em minha calça está grudado um nome que não é meu
de batismo ou de cartório,
um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
que jamais pus na boca, nesta vida
Em minha camiseta, a marca de cigarro
que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produto
que nunca experimentei
mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
de alguma coisa não provada
por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
minha gravata e cinto e escova e pente,
meu copo, minha xícara,
minha toalha de banho e sabonete,
meu isso, meu aquilo,
desde a cabeça ao bico dos sapatos,
são mensagens,
letras falantes,
gritos visuais,
ordens de uso,
abuso, reincidência,
costume, hábito, premência,
indispensabilidade,
e fazem de mim homem-anúncio itinerante,
escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É duro andar na moda,
ainda que a moda seja negar minha identidade,
trocá-la por mil, açambarcando
todas as marcas registradas,
todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser eu
que antes era e me sabia tão diverso de outros, tão mim mesmo,
ser pensante, sentinte e solidário
com outros seres diversos e conscientes
de sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio,
ora vulgar ora bizarro, em língua nacional ou em qualquer língua (qualquer, principalmente).
E nisto me comparo, tiro glória de minha anulação.
Não sou - vê lá - anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago para anunciar
para vender em bares festas praias pérgulas piscinas,
e bem à vista exibo esta etiqueta global
no corpo que desiste de ser veste e sandália de uma essência tão viva
independente, que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora meu gosto e capacidade de escolher,
minhas idiossincrasias tão pessoais,
tão minhas que no rosto se espelhavam
e cada gesto, cada olhar cada vinco da roupa
sou gravado de forma universal,
saio da estamparia, não de casa,
da vitrine me tiram, recolocam,
objeto pulsante mas objeto
que se oferece como signo de outros
objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim,
tão orgulhoso de ser não eu,
mas artigo industrial,
peço que meu nome retifiquem
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é coisa.
Eu sou a coisa, coisamente.


 Carlos Drummond de Andrade

"Já não me convém o título de homem...
Eu sou a coisa. coisamente"

Infelizmente, uma grande verdade, amigos!

Emília Pinto